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Teletrabalho - o trabalho em qualquer lugar e a qualquer hora…

Alvaro Mello (*)


As alterações ambientais são uma realidade e, para sobreviverem neste ambiente turbulento, as organizações estão buscando alternativas viáveis para os seus negócios, estruturas organizacionais e formas de trabalho. Dentro deste ambiente de mutações, existem profissionais que perceberam a relevância das inovações nas organizações, como é o caso do teletrabalho. 

A partir desta perspectiva, surge o Processo de Teletrabalho, como uma alternativa moderna de gestão empresarial, sob o enfoque das alternativas de trabalho flexível para tornar as empresas mais competitivas e dinâmicas, diferentes daquelas outras que ainda estão perigosamente acostumadas à estabilidade e à rotina do trabalho tradicional. 

Contudo, há alguns princípios essenciais para que o teletrabalho funcione. Nenhum deles é particularmente difícil ou revolucionário; são simplesmente boas práticas gerenciais tais como seleção cuidadosa do pessoal que trabalha à distância, estruturação de ambientes e tecnologia de trabalho apropriados, além de suporte adequado de telecomunicações, estabelecimento de um conjunto de procedimentos de avaliação que privilegiem o desempenho, treinamento do pessoal que trabalha a distância assim como seus colegas de trabalho, e verificação frequente do andamento do trabalho. 

Vale salientar que esta modalidade de trabalho, para muitos funcionários, pode ser um conceito novo, mas não é um estilo de trabalho sem precedentes. Vários funcionários de grandes organizações públicas e privadas já trabalham remotamente em instalações da empresa ou em regionais: gerentes de obras, vendedores, engenheiros de campo que trabalham fora do escritório, com graus variados de contatos com seus supervisores. 

O Ambiente propício para o Teletrabalho

O que é que o Citibank e a CISCO têm em comum? Serviços de classe mundial? Uma linha de serviços competitivos? Excelente atendimento ao cliente? Tecnologia avançada? Não necessariamente uma dessas razões mas, sim, o fato de serem ambas empresas que implantaram, com sucesso, o Processo de Teletrabalho, utilizando recursos tecnológicos nas áreas de telecomunicações e informática. 

Vale salientar que o uso das telecomunicações no teletrabalho não é considerado algo totalmente inovador pois, segundo Joel Kugelmass(Telecommuting, Lexington Books -1995), há indicadores do seu surgimento nos Estados Unidos em 1857, na companhia Estrada de Ferro Penn. Nesta época, a empresa usava o seu sistema privado de telégrafo para gerenciar o pessoal que estava distante do escritório central, ao ser delegado aos funcionários o controle no uso de equipamento e na mão de obra. Em outras palavras, a organização seguia o fio do telégrafo e a empresa acabou por transformar-se num complexo de operações descentralizadas. 

Logo, o que realmente é novidade nesta área da organização do trabalho, tanto no setor público quanto no privado, e, independente do tamanho da empresa, são as redes de telecomunicações, de custo razoável e com alta performance organizacional, que se tornaram parceiras constantes e fundamentais na gestão das organizações bem sucedidas. 

A partir do sistema de informação e de comunicação ocupando a distância física entre os funcionários de uma mesma organização e entre funcionários e clientes, verifica-se a necessidade de se identificar novas fronteiras do que se entende por local de trabalho. 

De fato, a área física onde tradicionalmente se trabalha não é mais uma entidade tangível com fronteiras bem definidas, baseadas em regras e observação visual do processo de trabalho. 

Nesta linha de raciocínio, temos agora, dentro desta visão ampla e integrada, os processos gerenciais, convivendo com o trabalho remoto, eletronicamente gerenciado. 

Consequentemente, a empresa não deve ter mais expectativas neste processo de mudanças gerenciais, ao dispor de funcionários que chegam ao local de trabalho na hora marcada e ocupam suas funções pré-estabelecidas em mesas cativas ou salas próprias.

Face a esta inovadora abordagem do teletrabalho, é necessário entender que, na moderna empresa, a estrutura organizacional, a estratégia, a cultura, os papéis e os processos estão interligados, exigindo um novo alinhamento, equilíbrio e harmonia organizacional. Portanto, as questões centrais das organizações estão mudando e têm como fatores críticos para o sucesso do teletrabalho, o gerente, o supervisor e o funcionário. 

Logo, saber quando e em que função adotar o teletrabalho é tão importante quanto saber onde não adotá-lo, pois já existe uma tecnologia de informação consistente e versátil para apoiar o trabalho fora do escritório, mas ainda não existe a visão administrativa necessária para gerenciá-lo. 

Portanto, não devemos nos esquecer que o teletrabalho consubstancia o ato de exercer atividades que podem ser realizadas em um domicílio ou em local intermediário, visando a competitividade e flexibilidade nos negócios. Dessa forma, apontam-se como aspectos favoráveis desse processo, além de concentração de esforços (focalização): maior capacidade de adaptação às mudanças ambientais; estímulo para as organizações analisarem a sua implantação com vistas a melhorar a produtividade e reduzir os custos com espaço e o absenteísmo; alavanca a tecnologia e os investimentos em pessoal obtendo, assim, uma força de trabalho mais eficiente e confiável. Dentre os setores que nos Estados Unidos estão adotando este sistema, destacam-se as áreas de telecomunicações, informática, seguros, consultorias de empresas, auditorias, serviços públicos, propaganda, publicidade, universidades, gás natural etc. 

No Brasil, sobressaem-se na adoção deste recurso organizacional, empresas como Ibope, Serasa, Metro, IBM, Uranet etc. 

Vale salientar que a utilização do teletrabalho nas empresas independe do seu tamanho, pois encontramos sua aplicação em organizações com 20 ou com 20.000 funcionários. 

Tendo em vista que o propósito do teletrabalho é, em primeiro lugar, oferecer uma melhor resposta às empresas para enfrentar as pressões do mercado e, em segundo, constituir um elemento-chave para o desenvolvimento estratégico das organizações, sua implantação deve levar em conta a precaução de evitar visar apenas a redução de custos, com corte de pessoal. Assim, ao se adotar o teletrabalho dentro dos padrões aconselhados, ele se torna um instrumento que beneficia a empresa, o empregado e a sociedade concomitantemente. 

Vale salientar que, no Brasil, na área de Recursos Humanos, como em outras áreas do conhecimento administrativo, o teletrabalho é ainda um conceito de certa forma novo e pouco conhecido, já tendo causado confusão terminológica e alguns mal-entendidos – e, consequentemente, má implantação nas organizações. 

Tendências que poderão justificar a expansão do teletrabalho

Pelos dados conhecidos, sabe-se que existem mais de 10 milhões de pessoas que trabalham em regime de Teletrabalho, com Programas variados, estruturados pelas empresas. Por outro lado, existe um número significativamente maior de pessoas que trabalham nesse regime de maneira informal, simplesmente com a anuência das empresas. Além disso, claro, grande parte das pessoas que atuam de maneira autônoma, o fazem a partir de suas residências. 

Assim, o número de usuários de internet em domicílios e empresas, no Brasil, é de aproximadamente 66 milhões. Logo, por razões demográficas, a região sudeste, em especial São Paulo, é aquela que tem o maior número de teletrabalhadores. Se considerarmos, de maneira conservadora, que 30% desses usuários utilizam a internet para questões ligadas ao trabalho, teremos cerca de 20 milhões de pessoas trabalhando, ainda que informalmente, em regime de teletrabalho, nos ramos industrial e de serviços, nas suas áreas de suporte – Finanças, RH, Logística, TI, Facilities, Serviços, Compras etc., bem como nas áreas de Vendas. 

Dentre as tendências que justificam a expansão do teletrabalho destacam-se: 

•    o profissional deverá ser cada vez mais autônomo, colaborativo, versátil, empreendedor, conhecedor de suas próprias vontades e ultraconectado, com disposição para o trabalho sem endereço fixo, executando suas atividades no home office, hub, co-working ou no cliente; 
•    passa cada vez mais a valer o conceito de carreira sem fronteiras, ou seja, a sequência de experiências pessoais de trabalho que o profissional vai desenvolver ao longo da sua vida; 
•    o surgimento crescente das Startups: pequenas empresas de tecnologia; 
•    mais flexibilidade na remuneração, no tempo de duração da atividade, no conteúdo e no fuso e local de trabalho; 
•    são cinco forças que estão moldando o trabalho e seus profissionais: a tecnologia, a globalização, as mudanças demográficas ,as preocupações ambientais e as tendências de comportamento humano; 
•    trabalhar em casa ou próximo da moradia, mais que uma questão sustentável, será uma opção pelo bem-estar, algo que o brasileiro já valoriza. Assim, o home-office será a realidade de milhões de brasileiros nos próximos anos, sobretudo nas grandes cidades sufocadas pelo trânsito; 
•    mais autonomia para que o funcionário crie, produza e evolua sem ficar stressado, com a liberdade de se propor ideias a qualquer momento e de desfrutar de horários maleáveis, pois já se trabalha remotamente de diferentes pontos do Brasil e do mundo. 

Deste modo, são considerados a seguir, alguns acontecimentos no ambiente brasileiro que poderão contribuir para o incremento da adoção do teletrabalho no país: 

•    o teletrabalho como estratégia para melhorar a Mobilidade Urbana durante os Megaeventos Esportivos (Copa das Confederações 2013, Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos 2016), tem o potencial de proporcionar significativos benefícios relacionados com a sustentabilidade, a redução de transporte, congestionamentos e emissão de CO2, baseados na experiencia bem sucedida de Vancouver, que organizou os Jogos de Inverno em 2010 e adotou o teletrabalho durante este megaevento esportivo. Também nos Jogos Olímpicos em Londres usou-se o teletrabalho como recurso para diminuir os congestionamentos de transito na cidade. Esta adoção poderia também ser aplicada nas cidades-sedes durante a Copa 2014 e nos Jogos Olímpicos tornando estes eventos sustentáveis; 
•    a conscientização de que o Teletrabalho estimulará a expansão urbana e também, tem outros impactos positivos, tais como a redução de energia, a melhoria da qualidade do ar, o melhor uso da terra e a utilização racional dos transportes públicos; 
•    os avanços da tecnologia da informação facilitarão cada vez mais o teletrabalho; 
•    As agências governamentais irão desempenhar um papel importante no sentido de facilitar e incentivar o teletrabalho nas empresas; 
•    o reconhecimento que o Teletrabalho pode ser uma ferramenta eficaz para a gestão virtual nas empresas; 
•    a continuidade das pesquisas nas universidades para esclarecer os custos de teletrabalho, benefícios e impactos futuros. 

Assim , o Teletrabalho passou a ser muito mais praticado no mercado, em função do desenvolvimento da tecnologia da comunicação a distância. Neste sentido, o crescimento do teletrabalho no Brasil é também uma resposta aos anseios da nova geração profissional que está entrando no mercado de trabalho e anseia por melhor qualidade de vida, mais desafios, respostas e feed backs mais rápidos, questões essas que estão contempladas na prática do teletrabalho. 

Vale salientar que, com a aprovação da Lei 12.551/11, que modifica o artigo 6º da Consolidação das Leis de Trabalho, o teletrabalho passa a ser totalmente regularizado. Trata-se de uma lei que possibilita o teletrabalhador a ter direitos e garantias antes indisponíveis. Por outro lado, pode também permitir a exportação de empregos por causa dos custos baixos. Também, o teletrabalhador economiza horas não-remuneradas para se locomover e pode atender a sua casa e a família quando a atenção for demandada. 

Todas estas considerações sem dúvida, favorecerão e expandirão o teletrabalho no país.
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(*) Alvaro Mello é Doutor pela FEA/USP e Mestre pela EAESP-FGV. Consultor, autor e co-autor de livros pioneiros sobre teletrabalho e empreendedorismo. Na BSP Business School São Paulo coordena o CETEL Centro de Estudos e Pesquisas de Teletrabalho e de Alternativas de Trabalho Flexível. É conselheiro no CRA-SP Conselho Regional de Administração de São Paulo, fundador e vice- presidente do ITA International Telework Academy, membro do Grupo de Teletrabajo eLAC2015 da CEPAL e fundador e membro do CIDTT Centro Internacional para el Desarrollo del Teletrabajo.

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